sábado, 23 de julho de 2011

[Resenha] Kim Edwards - Lago dos Sonhos

A história e o perfil de Lucy Jarrett instantaneamente chamam a atenção de qualquer leitor. A sinopse oficial do livro a descreve como uma jovem de espírito aventureiro, que saiu de casa pouco depois da morte do pai - com a qual nunca lidou muito bem e em relação à qual ainda mantém alguns fantasmas - e viajou pelo mundo, tornando-se uma especialista em recursos hídricos e construindo um relacionamento firme com o paciente e igualmente aventureiro Yoshi. Até que a mãe de Lucy sofre um acidente - nada grave - que faz com que a garota retorne à casa onde passou sua infância e adolescência. Consequências imediatas: reencontro com o passado; confronto com histórias enterradas; revisão de conceitos. Cativante, não?

Pois eu sinto dizer que, pela primeira vez na vida, eu me decepcionei com uma publicação da Editora Arqueiro. Lago dos Sonhos foi uma leitura entediante, cansativa e excessivamente detalhada, que em nenhum momento conseguiu prender minha atenção. Ao retornar à sua primeira casa, Lucy encontra algumas cartas que fazem referência a uma mulher chamada Rose, que mais tarde é devidamente caracterizada como uma antepassada perdida, sobre a qual Lucy nunca ouvira falar, mas que de alguma forma foi crucialmente importante para a história dos Jarrett, além de ter conexões com a batalha pelo voto feminino. A questão é que eu simplesmente não consegui me interessar, em um capítulo sequer, pela história de Rose. A narrativa de Kim Edwards se perde por muito tempo em descrições de vitrais e contrastes, por meio dos quais as primeiras referências sólidas a Rose surgem, e a descrição ultrapassa a linha tênue entre profundidade e prolixidade, transformando muitos dos parágrafos do livro em um sufoco entediante.

Sinceramente, a protagonista chega a ser irritante. Eu imagino que a intenção fosse comover o leitor, convidando-o a mergulhar na história dos antepassados de Lucy, mas, em vez disso, eu acabei por ver a nossa protagonista como uma mulher obcecada por Rose, que não consegue pensar em outra coisa - isso quando o livro possuía um leque invejável de temas a serem explorados, tais como a fragilidade do relacionamento Lucy-Yoshi e as incertezas da mulher em relação à morte do pai. Chega a haver uma cena onde, em meio a uma série de ações romanticamente perigosas relacionadas a um antigo namorado de Lucy, presenciamos o seguinte diálogo:
- Você está chorando? Lucy, não estou tentando fazer você se sentir culpada. Só queria que você soubesse que, mesmo naquele momento, eu estava pensando em você.
- Eu sei - falei, enxugando os olhos. - Não estou chorando.
- Está, sim.
- É coisa antiga, só isso. Ainda é difícil me lembrar daquela noite, do que poderia ter acontecido e do que de fato aconteceu. Ele estava no jardim quando você me deixou em casa. Foi a última vez que o vi.
- Lucy... - Keegan segurou minha mão sem dizer mais nada.
Depois de alguns minutos, consegui me controlar e enxuguei os olhos de novo.
- Descobri uma porção de coisas sobre Rose - falei, para mudar de assunto.

Ah, me poupe. Essa insistência quase paranoica em conhecer cada minúcia da história de Rose Jarrett foi o que mais me incomodou, e a situação retratada no excerto acima - a inserção do assunto "Rose" em uma cena que claramente não é adequada a essa temática - se repete várias vezes. A realidade é que é possível se interessar pela trama da antepassada de Lucy, sim - quando a primeira carta é descoberta, eu mesmo me surpreendi a querer saber mais sobre a tão enigmática Rose -, mas o assunto é abordado com tal insistência que o leitor acaba se cansando, tamanha a supersaturação que o tema adquire. É mais ou menos assim: se você tem um interesse mediano por ecologia e conhece uma pessoa que lhe dá uma pincelada sobre o tema, você se interessa ainda mais. Torna-se curioso. Agora, quando essa pessoa começa a lhe fornecer nomes científicos, biografias de grandes pesquisadores da área; quando começa a abordar a ecologia no café da manhã, no almoço e no jantar; quando está sempre querendo que você a acompanhe em excursões para analisar a botânica de algum lugar... Bom, você cansa.

Eu admiro livros cujas tramas se passam em pouco tempo: se não me engano, em O Símbolo Perdido, do Dan Brown, também da Arqueiro, tudo acontece em 24 horas, e é praticamente impossível largar o livro. A maior parte da trama de Lago dos Sonhos acontece em uma semana, mas parece durar uma eternidade. Isso porque é tudo muito repetitivo: todos os dias, Lucy acorda (descrevendo como acordou), toma café (descrevendo o que comeu, como comeu e por que comeu), pega seu Impala amarelo (descrevendo como entrou no carro) e vai atrás de mais informações sobre Rose, como se nada mais acontecesse em sua vida. E foi aí que eu me deparei sendo obrigado a acompanhar o lentíssimo desenrolar de uma história que não me interessou.

Fora do campo semântico, não posso deixar  de afirmar que o domínio de Kim Edwards sobre as palavras é invejável. Todas as descrições são incrivelmente bem-feitas (até demais), da mesma forma que os excertos que pintam as emoções de Lucy, isoladamente, são brilhantes. Portanto, seria absurdo, da minha parte, julgar a autora apenas por ter escolhido uma má história. Já ouvi várias opiniões positivas em relação a O Guardião de Memórias, e tenho certeza de que Kim tem potencial para criar uma história ao nível dos grandes autores que todos nós idolatramos. Contudo, eu tristemente concluo que essa história não é Lago dos Sonhos. Uma pena.
Por ora, no entanto, minhas perguntas eram mais simples: quem exatamente era Rose Jarrett e, se ela havia chegado ao país com meu bisavô Joseph, por que eu nunca tinha ouvido sua história? Por que aquela manta delicadamente tecida havia sido escondida? Oliver Parrott podia pensar o que bem entendesse, mas a mulher do vitral me parecia familiar, ligada a mim como alguém que eu houvesse conhecido em outra vida, em um sonho. Perguntei-me se remontar aquela história até sua origem poderia servir para aplacar a inquietação que me acompanhava desde a morte de meu pai.
Por fim, uma ressalva: eu vi algumas resenhas dizendo que Lago dos Sonhos poderia não agradar a todos porque o livro é uma obra mais direcionada a adultos, mais profunda. Por favor, meus caros: não é questão de profundidade, aqui. Como eu disse mais acima, há uma tênue linha entre profundidade e prolixidade. Se você quer essa última, leia Lago dos Sonhos; caso queira profundidade, leia Lionel Shriver.


Título: Lago dos Sonhos.
Autora: Kim Edwards.
Editora: Arqueiro.
Número de páginas: 336.
Avaliação: 2 de 5.

11 comentários:

  1. Oi Robledo!
    Adorei sua resenha!! Você escreve muito bem!
    Pena que o livro é tão chato! Vou anotar a dica para NÃO comprar :)
    Beijos,
    Sora - Meu Jardim de Livros

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  2. Um das coisas que mais admiro nas resenhas do Livros, Letras e Metas é a percepção crítica que você, Robledo, e o Caíque possuem, além da sinceridade e honestidade.
    Às vezes acho que vocês exageram nas críticas negativas, mas, enfim, parabéns pelo bom trabalho e boa escrita.
    Falando do livro, eu até achei a sinopse interessante, mas o meu sexto sentido me diz que Lago de Sonhos é realmente chato e não leva o leitor ao delírio. Já ouvi bons comentários de O Guardião de Memórias, talvez Lago dos Sonhos não tenha sido o melhor livro de Kim. Que tal “Lago dos Pesadelos”?

    Um abraço.
    @Jonathan_HGF

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  3. Uau, simplesmente amei sua crítica. Você expressou tudo o que sentiu pelo livro, de uma maneira incrível, de verdade.
    Por um lado, fiquei curiosa para ler. Mas por outro, quero passar longe do livro. Já li um do mesmo tipo, e praticamente tive um surto de nervoso no meio do livro. Acho que não sirvo pra acompanhar uma rotina tediosa e repetitiva, principalmente em um livro! :/
    E também concordo com o que você disse de literatura para adultos e profundidade. Na hora lembrei de A Menina Que Roubava Livros, que tanta gente largou por causa da escrita e, alguns, "da profundidade". Mas essa não é a questão. Além de que, tem gente que prefere o tipo de livro que vem tudo mastigadinho, previsível.
    Bom vou parar por aqui porque o comentário está grande, haha.
    Mas, de verdade, adorei a resenha!

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  4. Não acredito que exagerem nas críticas negativas. Acho que é mais uma questão de personalidade própria que as resenhas de vocês têm ^^

    Digo isto porque quando entro pra ler, antes mesmo de chegar no nome de quem postou, já sei se é de Robledo ou de Caíque o/

    Excelente resenha novamente, amigo. É um espaço que tenho cada vez mais prazer de visitar =)
    Mas ainda quero ler Lago dos Sonhos heheh

    Beijos aos dois =*

    This Gomez
    Steampink
    Canto e Conto

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  5. Hum... tenho vontade de ler o livro, mas não sinto nenhuma necessidade de correr e comprar.
    Confesso que sua resenha foi a mais crítica que vi até o momento, mas gostei bastante.

    É bom saber que devo ficar já com um pé atrás rs.

    Bjs,
    Kel - It Cultura
    www.itcultura.com

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  6. Eeeeeeeeeita! haeoihaeoiaheoihae. Eu TINHA vontade de ler esse livro, mas pelo meu terrivel erro de sempre julgar pela capa (que sim, é linda!) mas agora perdi totalmente o interesse no livro :/ Acho que nem se um diiia... tlaveeez... quem sabeee.. eu tenha a oportunidade, eu vá ler.. kkkk

    Beeeijos, nanda
    www.julguepelacapa.blogspot.com

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  7. Robledo,
    A sua resenha não é a primeira crítica consideravelmente negativa que li a respeito desse livro.
    Os blogueiros, em geral, estão reclamando da descrição desnecessária de Kim Edwards e, pelo visto, o problema é sério mesmo.
    Pelo seu texto e pelas quotes disponibilizadas, pude notar uma narrativa cansativa, com detalhes frívolos que, perdoem-me alguns autores, parece ser acrescentada para dar mais páginas à obra. Já presenciei esses casos.
    A história do livro em si é boa e poderia ter despertado a minha curiosidade, não fossem as opiniões que li, salvo raras exceções, que apontam os mesmos erros...
    É, Kim Edwards, quem sabe na próxima?
    Parabéns pela sua resenha, mais uma vez.

    Beijos,
    Ana - Na Parede do Quarto

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  8. Quando vi e pesquisei sobre esse livro uma primeira vez, não tive muito interesse. Não é do tipo de leitura que mais me agrada...
    Agora, depois de ler sua resenha, tenho quase certeza que não gostarei desse livro. Não consigo de jeito maneira ficar arrastando leituras.
    Ótima resenha :)
    Beeeijos

    Marina - http://distribuindosonhos.blogspot.com

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  9. Háááá eu achei que já tivesse comentado essa resenha aqui, viajei geral.

    "Consequências imediatas: reencontro com o passado; confronto com histórias enterradas; revisão de conceitos. Cativante, não?"

    Não. hehehe Me parece a velha história de sempre, etc, etc

    "A narrativa de Kim Edwards se perde por muito tempo em descrições de vitrais e contrastes, por meio dos quais as primeiras referências sólidas a Rose surgem, e a descrição ultrapassa a linha tênue entre profundidade e prolixidade, transformando muitos dos parágrafos do livro em um sufoco entediante."

    Descrições e mais descrições entopem a história e tornam a leitura muito chataaa.

    "- Lucy... - Keegan segurou minha mão sem dizer mais nada.
    Depois de alguns minutos, consegui me controlar e enxuguei os olhos de novo.
    - Descobri uma porção de coisas sobre Rose - falei, para mudar de assunto."

    Que tapa na cara! Putz, isso é muito irritante! Essa Lucy faria um bom par com aquele Pedro da Malhação que ficou obsecado pela Raquel. Faça-me o favor né! Dá um tempo!

    "Torna-se curioso. Agora, quando essa pessoa começa a lhe fornecer nomes científicos, biografias de grandes pesquisadores da área; quando começa a abordar a ecologia no café da manhã, no almoço e no jantar;"

    Kkkkkkk ri muito agora! Robledo, você conseguiu nos passar muito bem o que sentiu ao ler esse livro e, admito não gastaria dinheiro com o mesmo!

    Adorei a resenha!

    Beijos

    BabihGois
    http://babihgois.blogspot.com

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  10. Acho que só eu gostei muito desse livro e falei bem dele =( Percebi as diversas críticas quanto a narrativa excessivamente detalhada de Kim Edwards, mas nao achei o livro arrastado e, como você mencionou, adorei o texto dela. É muito bem construído. Eu gostei da trama, apesar de o forte dela ser mais o texto, e acho que esse enriquecimento de detalhes que chateou mais as pessoas. Entendo o seu ponto, mas para mim, o assunto Rose nunca se tornou cansativo, li sempre as cartas dela com muita vontade e curiosidade. De qualquer forma, sua observacao final é válida - ou parece ser rs, nao li Lionel Shiver. Eu trocaria o livro numa boa, pois, apesar de bem escrito e tudo mais, ele nao fez diferenca nenhuma na minha vida e nao me acrescentou nenhuma licao ou qualquer outra coisa. Talvez essa seja a falta de profundidade que nao percebi durante a leitura. Vivendo e aprendendo rs

    Abracos,

    Victor

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